Ambiente - Caracterização da Paisagem
A Paisagem do Concelho ao Longo dos Tempos
A paisagem do concelho de Sintra tem sofrido alterações mais ou menos profundas ao longo dos séculos. Assim, em tempos remotos, as árvores dominantes eram os carvalhos. Nas zonas mais húmidas corria o Carvalho-alvarinho ou o Carvalho-cerquinho, enquanto nas áreas mais soalheiras evidenciava-se o Sobreiro, em solos siliciosos, ou o Carrasco e o Zambujeiro, em solos calcários.
A destruição do coberto vegetal iniciou-se na época pré-romana, dando lugar a uma estrutura agrária muito parcelada resultando num mosaico de culturas, terrenos baldios, pastagens, matos, etc., delimitados por muros de pedra solta. Nas zonas mais pedregosas como a própria Serra, a destruição da Floresta climática deu lugar a uma vegetação composta por matos expontâneos que abrigavam uma diversificada e rica fauna. Estes foram os locais mais procurados para a realização de montarias e outras caçadas.
Mais recentemente operaram-se duas mudanças radicais que marcaram profundamente esta área:
· a primeira deu-se no século passado e consistiu na florestação da Serra com o aproveitamento de muitas árvores autóctones e a introdução de outras vindas dos mais diversos pontos do globo;
· a segunda é bastante próxima e tem tido resultados desastrosos para o património natural deste concelho - a explosão urbanística e demográfica.
A Serra de Sintra, que tomou corpo no Cretácico, há mais de noventa milhões de anos, é o acidente geomorfológico mais importante de toda esta região. De origem eruptiva (granitos e rochas afins) atinge o seu ponto mais elevado na Cruz Alta (528 metros) e sobressai da paisagem circundante, mais ou menos plana a monótona com uma altitude média que ronda os 150 metros, assente em calcários e arenitos do Jurássico e Cretácico. No Noroeste da autarquia encontranos pequenas bolsas de terrenos de aluvião (Plistocénico e Holocénico) e, na zona do Banzão, dunas e areias eólicas do Holocénico. Existem ainda pequenas zonas de basaltos na área de Montelavar.
Condições Climáticas
Dois factores contribuem decisivamente para as condições climáticas que se fazem sentir na região sintrense:
· o primeiro tem a ver com a situação do concelho em relação ao Oceano Atlântico;
· o segundo com a barreira de condensação que a Serra de Sintra constitui.
Desta maneira podemos observar que os níveis de radiação diminuem de Sudeste para Noroeste, isto é, à medida que nos aproximamos da costa. A insolação apresenta o mesmo tipo de variação mas, na zona da Serra registam-se valores tão baixos como aqueles que se verificam na Assafora e território adjacente, o que se deve à nublosidade aí existente. Quanto à temperatura, ela tem os seus valores mais baixos na zona da Serra e no extremo Nordeste do concelho; no primeiro caso devido à altitude e no segundo às condições de relativa continentalidade. Finalmente, quanto à precipitação, verificam-se duas situações bem diferenciadas: uma mais seca, junto ao litoral, e outra mais húmida, que abrange a zona de influência directa da Serra (onde a precipitação atinge o seu máximo) e toda a área oriental do concelho.
Os diferentes tipos de solos estão intimamente com as características litológicas e geográficas já referidas. Podemos classificá-los em 3 grandes grupos:
· os solos derivados das rochas eruptivas;
· os solos derivados das rochas sedimentares;
· os que estão ligados às formações arenosas.
A ocupação do solo, foi condicionada tanto pela sua génese como pelos factores de natureza orográfica e climática. Assim, os solos agricultados são fundamentalmente aqueles ligados aos calcários, em terrenos mais ao menos planos. Na Serra encontramos a área florestal por excelência enquanto as areias são ocupadas pela única vegetação arbórea capaz de crescer em substractos pouco consolidados - as matas de pinheiros.
A posição geográfica do concelho de Sintra aliada às características físicas anteriormente referidas faz prevalecer duas influências fundamentais que determinam os ambientes ecológicos aqui existentes: a inserção da região no bioma Mediterrânico e a proximidade do Oceano Atlântico. Pequenas variações locais das condições climatéricas, orográficas e litológicas podem originar o domínio duma ou doutra destas influências ou, ainda, criar uma mistura de várias situações. Na figura 5 constata-se a existência de 4 áreas ecologicamente diferenciáveis:
· Uma área de ocorrência natural/potencial de árvores como o Carvalho-negral, o Bidoeiro e o Teixo, onde aparecem ainda o Carvalho-alvarinho, o Carvalho-cerquinho, o Sobreiro, o Castanheiro, o Pinheiro-manso e o Pinheiro-bravo (AS.MA.AM)
· Um área onde potencialmente ocorrem o Carvalho-alvarinho, o Carvalho-cerquinho, o Sobreiro, a Oliveira, o Castanheiro e os pinheiros (MA.AM)
· Uma área de pinhal (pMA)
· Uma área onde o Carvalho-alvarinho deixa de ocorrer e que abrange a maior parte do concelho (AM).
Três Grandes Zonas: a Faixa Costeira, a Serra de Sintra, a Área Agrícola
Para facilitar a abordagem do Património Natural consideramos três grandes Zonas de acordo com a sua fisionomia própria: a Faixa Costeira, a Serra de Sintra e a Área Agrícola. As duas primeiras integram-se na Área de Paisagem Protegida Sintra-Cascais, criada com o objectivo de preservar os valores paisagísticos, geológicos e biológicos que esta parte do concelho encerra.
A Faixa Costeira
Estendendo-se desde a Foz do Falcão (a Norte) até à Biscaia (a Sul) esta faixa, com uma largura média de cerca de 3 Kms, faz a transição entre dois meios completamente diferentes - o Meio Marinho e o Meio Terrestre - sofrendo, por isso, influências de ambos.
O mar, com uma acção fortemente erosiva, vai modelando a linha de costa quer por desgaste físico provocado pela força das águas, quer por ataque químico a algumas rochas (e.g. calcários) quer, por deposição e remoção contínua do sedimento arenoso. Também os organismos marinhos que vão colonizando a zona de marés ajudam s desagregar o substrato alterando a sua micro-estrutura. Por outro lado, os ventos são igualmente um agente de erosão através do transporte activo das areias que chegam a ser depositadas a longas distâncias. A deslocação de massas de ar carregadas de partículas de água salgada em suspensão produz o efeito da salsugem que faz incidir a influência marinha muito para além dos seus limites físicos.
O meio terrestre exerce a sua influência sobre a Faixa Costeira fundamentalmente pela mão do Homem que desbravou a vegetação natural para a substituir pelas suas culturas e para permitir a criação de gado. Mais recentemente, a pressão sobre o litoral revestiu-se de novas formas com expansão das áreas urbanas e do turismo.
Por tudo isto não é de estranhar que numa área relativamente restrita se possam identificar inúmeras situações ecológicas que podem ser agrupadas em conjuntos minimamente homogéneos:
· o mar - que não fazendo propriamente parte do concelho é responsável por muitos factores que o condicionam directamente;
· a costa rochosa - como antigas muralhas de uma imensa fortaleza de há muito destroçada, as escarpas e falésias altas, extremamente recortadas, por vezes formando pequenas ilhotas, delimitam a maior parte da costa deste concelho e atingem no Cabo da Roca o ponto mais ocidental do subcontinente europeu;
· a costa arenosa - para Norte do Cabo da Roca e alterando com zonas de costa rochosa vão-nos aparecendo algumas manchas de areal, por vezes para a frente das arribas, entre estas e o oceano, outras vezes em pequenas enseadas de existência precária, encaixadas entre falésias ou associadas à foz de pequenos cursos de água;
· os matos costeiros - do ponto de vista estrutural, os matos que ocupam o planalto costeiro e algumas vertentes entre falésias constituem uma vegetação mais ou menos rala com arbustos rasteiros mas muito densos (capazes de resistir à fustigação dos ventos marítimos) a que vulgarmente se chama charneca;
· as zonas de maior intervenção humana - mais para interior, confinando com a Área Agrícola na sua maior parte, vamos encontrara uma zona bastante heterogénea, onde o homem transformou completamente os ambientes naturais para diferentes utilizações do solo.
A Serra de Sintra
Quem esteja familiarizado com este maciço já se apercebeu que existem aqui duas situações bem distintas:
· uma em que a vegetação é luxuriante, as árvores estão copo com copa formando um manto com várias tonalidades de verde, irregular e muito denso - o Grande Jardim;
· e outra, mais monótona, com matas de resinosas alterando com clareiras arbustivas, por vezes de grandes dimensões de onde sobressaem blocos rochosos - a Serra Brava.
A orientação perpendicular da Serra em relação à costa e as direcções predominantes dos ventos nesta região (Norte e Noroeste) levam a que se verifiquem alguns fenómenos interessantes que têm uma influência directa sobre as condições microclimáticas.
No flanco ocidental assiste-se a uma deflexão dos ventos que aqui sopram com grande velocidade que são desviados para o oceano. Mais afastado da costa, o flanco oriental recebe ventos relativamente brandos que envolvem a serra contornando-a para a sua vertente Sul. Alguns vales, com orientação concordante com a dos ventos, canalizam o fluxo fazendo-o adquirir uma forte aceleração. Um destes vales (a nascente do monge) divide o maciço segundo uma linha Noroeste-Sudeste. Grosso modo podemos considerar que a zona mais arborizada se situa para o interior desta linha enquanto no terço mais ocidental se verifica uma maior monotonia da paisagem.
A Área Agrícola
Abrangendo cerca de três quartos da superfície total do concelho, esta área é a mais densamente povoada e aquela onde a paisagem foi mais afectada. Ela sofreu alterações tão profundas que do provável sobreiral primitivo apenas restam algumas árvores dispersas. O seu relevo suave e os seus solos favoráveis às actividades agrícolas levaram à progressiva substituição do coberto natural por pastagens e terrenos agrícultados.
O Homem foi criando um ambiente cada vez mais favorável à sua própria instalação e, por isso, povoados, aldeias e vilas multiplicaram-se. Assim, quando o desenvolvimento industrial e a explosão demográfica de verificaram, esta zona, bastante próxima da capital em rápido crescimento, tinha todas as condições para que nela viessem implantar autênticas "cidade dormitório", como são hoje o Cacém, Queluz, Mem Martins, etc.
Refira-se ainda uma outra actividade económica famosa neste concelho e com impacte bem marcado na paisagem - trata-se da extracção de mármores que se verifica em zonas como a de Pero Pinheiro, sendo realizada em pedreiras a céu aberto esventradas por completo.
O rápido desenvolvimento da sociedade moderna, com a abertura de novas oportunidades de emprego, a especulação fundiária e a expansão da urbe, implicou a descaracterização do próprio meio rural já de si profundamente humanizado e do qual apenas restam algumas formas típicas a Norte e Nordeste do concelho.
Intimamente ligadas à evolução desta área, as suas formas de vida selvagem foram se modificando e adaptando às novas situações criadas que, grosso modo, podem ser encaradas dentro de 5 tipos biológicos diferentes:
· o meio rural é, sobretudo, caracterizado pelas extensões de campos de sequeiro que ocupam grande parte do limite Norte do concelho, nomeadamente na região situada entre Negrais e Almocrim, em que as culturas cerealíferas são o resultado da "domesticação" de certas espécies vegetais que substituíram completamente o coberto primitivo;
· as zonas florestadas foram implantadas pelo homem quer sob a forma de matas de protecção das encostas mais íngremes e em terrenos desabrigados e ventosos (pinhais), quer sob a forma de matas de produção (pinhais e eucaliptais), quer ainda, de origem mais antiga, as que têm como finalidade o embelezamento paisagístico ou a criação de espaços lúdicos (quintas, parques, campos de golf, etc.);
· os carrascais, também conhecidos por garrigues, são as únicas formações naturais ou semi-naturais e demarcam-se de toda a paisagem circundante pela sua fisionomia e estrutura, restando apenas algumas pequenas "ilhas" (Serra da Carregueira) em zonas com muitos afloramentos rochosos;
· os cursos de água - dos vários que percorrem esta Área existe um que pelo seu envolvimento paisagístico e pela sua relativa "pureza" merece a pena destacar: a Ribeira de Cheleiros, que limita o concelho de Sintra a Norte, atravessando uma zona tipicamente rural.
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