Localização
Largo Rainha D. Amélia, Sintra ("Vila Velha"), freguesia de S. Martinho
Memória descritiva
Constitui sem dúvida, no meio de tantas e tamanhas riquezas, o principal conjunto arquitectónico sintrense. Classificado como Monumento Nacional, ergue-se, em posição dominante, a meio da própria Vila. Trata-se de um conjunto que não foi concebido de uma só vez e numa sé época, mas sim de um harmonioso somatório de partes distintas, pouco a pouco acrescentadas a outras já antes existentes. Estamos, pois, perante um característico exemplar de arquitectura orgânica, isto é, perante uma verdadeira “obra aberta” que o foi, com inteira propriedade, ao longo de meio milénio. A irregularidade e o alcantilado do próprio terreno em que se ergue o Palácio, condicionaram-lhe o jogo de volumes, não permitindo soluções de simetria, nem regularidades de implantação e de cércea Assim, resultou um vasto conjunto de corpos aparentemente individuais e com personalidade própria de per si, mas afinal fundidos num grande todo e articulados através de um labirinto de escadarias, corredores, galerias e pátios interiores. Esta complexa organização lembra flagrantemente a de uma alcáçova muçulmana, ou, melhor, a um pequeno povo fortificado mouro e/ou berbere, igualmente construído corno puzzle secular, fértil em jogos de volumes e de luz. Porém, o barro seco ao sol é aqui substituído por pedra e argamassa; os ressaltos de portas e janelas em estuque apresentara - se aqui sob a forma de grossas e trabalhadas cantarias; os terraços são aqui cobertos por originais telhados, de diversas inclinações.
A tradição que pretendia ver no Palácio Real de Sintra unia original criação coeva do domínio muçulmano peninsular, ainda que com acrescentos posteriores, está hoje posta completamente de parte. Não há dúvida de que naquele mesmo local e muito provavelmente sobre um povoado proto-histórico romanizado, se teria oportunamente erguido a vila muçulmana e o seu alcazar - por certo uni dos castelos de extrema solidez que, para Sintra, refere Alhimiari. No entanto, tudo quanto hoje ali podemos observar não remonta para lá dos inícios do século XV. O Paço Real de Sintra, na sua actual expressão, revela-se pois e sobretudo, como o somatório de duas grandes campanhas de obras. A primeira, relativa à fundação, teve lugar, conto referimos, era inícios do século XV e por vontade do rei D. João I: e a segunda, em inícios do século XVI, por impulso de D. Manuel I.
Não há dúvida nenhuma que em ambas as campanhas esteve presente o elemento mouro, não porém de forma livre e natural, mas sim como voluntário exotismo dos monarcas portugueses. Sob D. João I devem ter trabalhado, na construção do Paço, populações regionais descendentes dos antigos dominadores muçulmanos, e que teriam conservado, rias suas fechadas comunidades, muitas antigas tradições, inclusive sob o ponto de vista das técnicas de construção, quer a nível da estrutura das paredes, quer sobretudo a nível do uso de elementos cerâmicos em portas, janelas e pavimentos. Referimo-nos aos ‘‘mouros forros”, de que nos falam múltiplos documentos medievais sintrenses, alguns dos quais mencionam mesmo a sua utilização nas obras de manutenção do Paço Real e do Castelo.
Porém, terá sido sob D. Manuel 1 que, de um modo mais ostensivo, se terá processado a influência artística muçulmana no edifício cru análise. O emprego quase contínuo de forros de azulejo relevados e policromos, nitidamente concebidos em termos de tradição andaluza; o complexo jogo de pátios interiores providos de fontes; os próprios remates decorativos de alguns corpos, como por exemplo o característico e raro pombal, pleno de rendilhados, que exteriormente coroa a chamada “Saia dos Brasões”: tudo, enfim, respira exotismo e conduz a nossa mente e a nossa alma para as misteriosas terras de Mafoma.
Todavia, avultam igualmente elementos tipicamente europeus desde as arcadas góticas de D. João I, às exuberantes portas e janelas manuelinas, sem contar inclusive com a esporádica presença de elementos renascentistas e italianizantes. Os múltiplos corpos deste complexo arquitectónico não ostentam terraços, mas sim exclusivamente telhados cerâmicos, dentro de uma evidente tradição europeia. Até mesmo o colossal par de chaminés cónicas, verdadeiro ex-líbris do Palácio e da própria Vila de Sintra, que na historiografia tradicional era apontado como de origem muçulmana, se pode hoje, com perfeita segurança, filiar em modelos europeus medievais, sem dúvida de alguma raridade mas ainda hoje passíveis de detectar.
Marginalmente devem ainda ser consideradas outras pequenas campanhas de obras que afectaram o presente imóvel ainda que com diminuto impacto, nomeadamente sob D. João III, em meados do século XVI; sob D. Pedro II, na segunda metade do século XVII; e sob D. Pedro V e D. Luís, na segunda metade do século XIX.
Porém, a solidez de estrutura, a originalidade conceptual, a vastidão e imponência, a riqueza arquitectónica e decorativa são britas e tamanhas, que todas as eventuais alterações e restauros praticados, por razões várias, nas estruturas joaninas e manuelinas, somem-se aos nossos olhos, mantendo-se, pois, praticamente intactas e perfeitamente actuantes, todas as estruturas originais.
O Paço Real de Sintra surge-nos hoje, pois, como uma extraordinária e majestosa fusão entre a tradição artística e arquitectónica da Europa medieval e a do Islão, síntese que apenas em território peninsular seria possível verificar-se, nomeadamente durante os nossos séculos de maior esplendor, que foram precisamente os XV e XVI.
Antes de passarmos a uma sumária descrição das várias zonas deste complexo arquitectónico, queremos desde já salientar que os seus forros de azulejos — sobretudo os parietais mas sem esquecer ainda alguns preciosos pavimentos constituem de per si a mais vasta e rica série de azulejaria mudéjar existente na Península Ibérica; o que, atendendo à especificidade peninsular deste tipo de materiais cerâmicos, equivale a dizer a mais vasta e rica série de azulejos mudéjares existente no Mundo.
A frontaria principal distribui-se a dois níveis: no inferior, desenvolve-se uma ampla arcada gótica vazada, que serve de local de transição entre o exterior e o interior do imóvel datável de inícios do século XV, deve-se por conseguinte à campanha joanina e à própria fundação do Paço; os monólitos calcários que a constituem apresentam-se repletos de siglas de canteiro. No nível superior, alonga-se a magnífica fachada da “Sala dos Cisnes” de estilo manuelino e datável, pois de inícios do século XVI; aqui merecem especial destaque as janelas geminadas de sabor exótico, profusamente decoradas.
Uma outra frontaria similar e coeva, localiza-se mais a leste. Por todas as restantes fachadas do imóvel subsistem elementos góticos e manuelinos, sobretudo detectáveis a nível de portas e janelas. Porém, e fora a frontaria principal, já descrita, todo o presente complexo arquitectónico se encontra sobretudo virado para dentro, não se reconhecendo facilmente no seu aliciante mas singelo exterior, as variedades de cambiantes, a diversidade arquitectónica, a riqueza de ornamentos que lhe vão no interior.
Apenas mais uma excepção, a nível do rendilhado pombal que serve de desenvolto beirado à “Sala dos Brasões”, o qual, como antes afirmámos, possui acentuado sabor mouro, pertencendo à campanha manuelina. O acesso ao interior faz-se através da referida arcada gótica e subindo uma harmoniosa escada de pedra em caracol, atribuível já a D. João III (meados do século XVI).
Chegados ao piso superior e dirigindo-nos para oeste, penetramos na “Sala dos Infantes” ou “dos Cisnes”. Ainda que estejamos sobre um espaço originalmente concebido aquando da fundação do Palácio, tudo foi remodelado durante a campanha manuelina. A parede que dá para a fachada principal do imóvel, a sul, corresponde uma outra, a norte, igualmente vazada por janelas geminadas de sabor mudéjar. Nos dois extremos desta longa sala abrem-se portões manuelinos, de cantarias profusamente lavradas, interiormente recortadas por painéis de azulejos bicromáticos figurando castelos. Outros painéis similares, figurando torres ameadas, coroam os vãos internos de todas as janelas. Entre elas e a toda a volta da sala, alonga-se vistoso tapete cerâmico igualmente bicromático, formado por quadrados inclinados, alternadamente, brancos e verdes escuro. Junto ao ângulo sudoeste, localiza-se uma esbelta lareira de sabor renascentista, construída em mármore fino e suportada por elegantes colunelos, igualmente coroada por um painel de azulejos acastelado. O chão, original, é constituído por um entrançado de tijoleira, lembrando uma monumental esteira. Por fim, assinalemos o espectacular tecto, formado por 27 caixotões octogonais (exceptuando os quatro de canto), emoldurados por talha predominantemente dourada; dentro de cada caixotão está pintado um cisne com a sua gargantilha de ouro com campainhas, variando as atitudes de painel para painel, sem que se encontrem dois idênticos. Este tecto, ainda que alvo de alguns restauros — aliás, bastante criteriosos e discretos — remonta ainda à primeira metade do século XV, ou seja, à fundação joanina do paço.
Seguindo para norte, encontramos primeiramente o chamado “Pátio dos Cisnes”, para o qual se desce através de uma elegante loggia. A sul, um vasto tanque, exteriormente forrado por largos painéis de azulejos mudéjares. Ao centro, sobre o pavimento de lajes, ergue-se uma curiosa coluna torça, de estilo manuelino; o seu remate é constituído por uma série de figuras humanas de cariz exótico, eventual alegoria ao domínio que Portugal exercia então nos quatro cantos do Mundo. A norte deste pátio, abre-se uma colunata manuelina que dá para um pavilhão, profusamente decorado no século XVIII; assim, todas as paredes se apresentam aqui forradas por azulejos figurativos, azuis e brancos; e os tectos ornamentados por estuques brancos, azuis e ocres, numa profusão de grinaldas e motivos florais que envolvem cenas mitológicas, tudo revelando uma ambiência e gosto barrocos.
Voltando à ‘Sala dos Cisnes” e continuando para noroeste, entramos na “Sala das Pegas’, estruturalmente obra de D. João I, apesar de interiormente decorada já sob D. Manuel. No entanto, o curiosíssimo tecto de madeira apainelada remontará conceptualmente a inícios do século XV, ainda que alvo de posteriores e naturais restauros; é constituído por 136 pequenos painéis triangulares, agrupados 4 a 4 em quadrados excepto junto aos cantos, em que se distribuem de forma triangular entre si divididos por molduras de madeira dourada e vermelho escuro. Em cada um dos 136 pequenos painéis triangulares surge-nos pintada uma pega, segurando no bico uma serpenteante banda sobre a qual se pode ler a divisa «por bem», alusiva a uma pitoresca lenda palaciana que se terá passado com D. João I. As paredes, no entanto, encontram-se inteiramente forradas por painéis de azulejos mudéjares, atribuíveis já à campanha manuelina de inícios do século XVI; tais painéis emolduram inclusivamente as portas góticas e as janelas, o que confere a todo este espaço um ambiente exótico e orientalizante. A primitiva lareira, igualmente demarcada por painéis cerâmicos policromos, foi, já no século XVIII, substituída por um esbelto fogão renascentista de mármore de Carrara, que se encontrava nos Paços Reais de Almeirim e que fora oferta do Papa Leão X a El-Rei D. Manuel, efectuada em 1515.
Seguem-se a ‘Sala das Sereias’ e a ‘Câmara do Ouro”, onde continuam, exuberantemente, os painéis parietais de azulejos mudéjares dominando todo o ambiente; entre eles, há alguns que remontam todavia a épocas pré-manuelinas e que podemos realisticamente atribuir aos primórdios deste conjunto áulico. Na primeira destas salas, porém, teremos ainda que destacar um curioso tecto apainelado e pintado, vendo-se ao centro uma nau portuguesa, e aos lados sereias tangendo instrumentos musicais; data já de finais do século XVII ou inícios do século XVIII.
Passando pela ‘Sala de César”, de menor interesse, alcançamos a ’ Sala da Coroa”, de novo revestida por preciosos azulejos mudéjares. Daqui sai-se para o “Pátio de Diana”, forrado com belos azulejos manuelinos de parra e cacho, situando-se aí uma interessante fonte renascentista.
Sobre este pátio alonga-se a “Sala das Galés”, para a qual se sobe através de uma escadaria geminada. Trata-se de um acrescento de finais do século XVI, que dá acesso a um jardim denominado dos “Príncipes”, que até nós chegou na sua feição barroca. A “Sala das Galés” ostenta um tecto de madeira em berço semicircular, datável já de meados do século XVII, no qual vemos figurada a Barra de Lisboa, com múltiplas embarcações e várias perspectivas de fortalezas e de casario costeiro.
Voltando à ”Sala da Coroa” e dirigindo-nos agora em sentido oposto, atravessamos o “Pátio da Carranca’, com o seu tanque manuelino revestido de azulejos ostentando a esfera armilar relevada; e, depois de subida uma pitoresca escada em caracol, entramos na “Sala dos Árabes”, que datará de inícios do século XV. Inteiramente forrada por um tapete bicromático de azulejos até meia altura das paredes, apresenta ainda, sobre o dito tapete e também sobre as múltiplas portas que dão para este espaço, um interessantíssimo remate de peças cerâmicas policromas, representando maçarocas relevadas, de espírito caracteristicamente muçulmano. O pavimento é constituído por um entrançado de tijoleiras rectangulares. A meio, surge uma fonte em mármore branco, de planta circular, inscrita num quadrado de azulejos alicatados. Ao centro da singela fonte ergue-se caprichosa escultura, de sabor vincadamente exótico, que Haupt e outros autores classificam como trabalho provavelmente indiano, ali colocado, pois, por D. Manuel I.
Ultrapassado mais um pátio, entra-se na rica capela gótica, consagrada ao Divino Espírito Santo. Do retábulo pintado em 1470 e que a documentação atribui explicitamente a Nuno Gonçalves, já nada resta. O próprio retábulo maneirista que o substituiu, da autoria de Diogo Teixeira, desde há muito que foi apeado, permanecendo hoje, depois de adequado restauro efectuado no Instituto José de Figueiredo, integrado nas colecções museológicas municipais. Porém, obras recentes puseram a descoberto, ao fundo do altar-mor desta capela, raros vestígios de pinturas góticas, que terão precedido o próprio retábulo de Nuno Gonçalves. Antes do altar-mor desenvolve-se, sobre o pavimento, longo tapete policromo de azulejos alicatados, que alguns autores atribuíram já ao próprio domínio muçulmano, mas que será mais legítimo colocar nos inícios do século XV isto é, integrado já no próprio Paço —, ainda que ostente evidente técnica e for arabizantes. As abóbadas, quer a da abside, quer a da nave, são ambas de berço e inteiramente forradas por um riquíssimo tecto mudéjar de madeira, pleno de arabescos e de motivos florais, remontável ao século XV, ainda que retocado e enriquecido por florões dourados já na época manuelina. As paredes da capela estão inteiramente pintadas e preenchidas por um sem número de cartelas quadradas inclinadas, dentro das quais nos surge representada, sobre fundo vermelho e em variadas posições a pomba branca do Espírito Santo, segurando no bico o símbolo pacifista e ecuménico do ramo de oliveira; deveremos no entanto notar que a maioria destas pinturas parietais se deve a um restauro praticado já no século XX, ainda que subsistam íntegras algumas canelas originais, remontáveis ao século XV. Mencionemos também a bela colecção de azulejos mudéjares, que forra os frontais dos altares laterais e central.
A nível da tribuna e caminhando para oeste, para fora da capela, encontramos, antes de entrarmos na ‘Sala dos Brasões”, uma pequena sala à esquerda, cuja tradição identifica como “Quarto/Prisão de D. Afonso VI”. Mais do que essa ocasional hipótese, interessa-nos aqui o carácter arcaizante deste reduzido espaço, com a sua pequena porta ogivada e o seu pavimento de velhas tijoleiras, pontilhado, aqui e ali, por azulejos mudéjares.
A “Sala dos Brasões”, que pouco depois se segue, ocupa por inteiro um largo e altivo torreão de planta quadrangular, que avulta, quer interior quer exteriormente, no âmbito do presente complexo arquitectónico. Toda ela, estrutura e decoração, se deve a D. Manuel 1, com excepção dos tapetes de azulejo que forram de alto a baixo todas as paredes, pintados a azul e branco, e figurativos, remontando já ao século XVIII. Porém, não é este o principal atractivo desta sala única nos anais da Arte Portuguesa, nem mesmo a sua singular e imponente concepção arquitectónica, mas sim o magnífico tecto, de talha dourada e caixotões pintados, que arranca sobre os ângulos das paredes através de conjuntos nervados em meia-laranja, e se desenvolve em direcção a um superior e central fecho, formando como que uma mitra - ou o interior de uma pirâmide rombóide — de oito faces, alcançando a altura de 13,5 m. Ao centro e em posição superior estão figuradas as armas do Reino de Portugal; em tomo, oito escudetes com as armas dos vários infantes e infantas, filhos de D. Manuel; em posições sucessivamente periféricas distribuem-se ainda 72 brasões, representantes das principais famílias portuguesas nobres. Sob este verdadeiro Livro de Armas arquitectónico, corre, a toda a volta da sala e junto à cimalha das paredes, a seguinte legenda, bem expressiva das intenções de D. Manuel ao criar este singular monumento:
POIS COM ESFORÇOS, LEAIS SERVIÇOS, FORAM GANHADAS, COM ESTAS E OUTRAS TAIS DEVEM DE SER CONSERVADAS.
Ou seja: «pois com esforços (e) leais serviços foram (estas armas brasonadas) ganhadas. com estas (armas) e outra tais (isto é, armas de guerra), devem de ser (as armas brasonadas) conservadas».
Voltando agora quase ao início do nosso percurso, ou seja, ao patamar que antecede a “Sala dos Infantes”, ou “Sala dos Cisnes”, caminhemos em sentido oposto, para leste. Entramos, assim numa ala de fundação e estrutura manuelinas, que se inicia precisamente pela chamada Sala de D. Manuel”. Esta ostenta uma magnífica porta com os característicos encordoamentos e é interiormente forrada, em todas as paredes e até meia altura, por tapetes de azulejos mudéjares. Passa-se daí para uma série de quartos, totalmente reformados durante o século XIX e, portanto, de menor interesse no presente contexto — relativamente às restantes alas do Palácio.
Retomando ao patamar de entrada, e avançando agora para norte, entramos na monumental cozinha, inteiramente dominada pelos cavernosos e altíssimos cones vazados que formam as suas peculiares chaminés, das quais já falámos ao descrever o exterior deste complexo áulico. Acrescentemos, apenas, terem existido chaminés similares — cónicas ou piramidais, mas sempre de avantajadas dimensões — noutros edifícios monumentais da Europa Medieval, nomeadamente em Espanha, nos mosteiros de Pamplona e de lranzu; em França, nas abadias de Fontevrault, de Marmontier, da Santíssima Trindade de Vendome, de São Pedro de Chartres e no Castelo de Saumur; em Inglaterra, em Durham: etc., etc.. O Paço de Sintra evidencia-se, neste contexto, não só por apresentar um par de chaminés gémeas, e não apenas uma isolada — como era mais normal—, mas ainda por conservar tais elementos íntegros até aos nossos dias, o que não sucede com a quase totalidade dos paralelos apontados, muitos dos quais podemos detectar apenas através de antigas representações iconográficas. Os exemplares de Sintra remontam a inícios do século XV.
Quanto a espaços exteriores, destaquemos apenas o “Jardim da Preta’, com o seu pitoresco tanque encostado à parede do Palácio e associado a duas figuras de barro relevadas apostas àquela mesma parede, representando respectivamente uma preta e um pajem, conjunto que remonta ao século XVII. Neste mesmo jardim pode observar-se ainda uma sucessão de contrafortes em arcada — que, naquele local, sustentam as paredes do Palácio—, de cariz e origem nitidamente medievais.
Memória histórica
Desde a Idade Média e até ao terceiro quartel do século XVI, Sintra constituiu residência privilegiada de reis e da Corte. Assim, o Paço Real de Sintra esteve profunda e intimamente associado ao próprio devir da Vila e de certa forma, ao de Portugal, porquanto ali foram tomadas algumas históricas decisões.
Nesse âmbito, ainda em plena medieval idade, o Paço Real foi integrado na Casa das Rainhas.
Já nos primórdios de quatrocentos, D. João 1 fundou o actual Paço. A esse monarca se deve também o início de uma época áurea da vivência do Real Paço. Enamorado por Sintra, D. João aí permanecia largas temporadas, tendo sido no Paço que se elaborou o plano e se decidiu a tomada de Ceuta, em 1415.
Em 1426, D. João I faz o seu testamento em Sintra; vem a morrer em 1433, sucedendo-lhe no trono de Portugal, D. Duarte. Este, apreciava Sintra sobretudo pelas caçadas e cavalgadas que aí organizava. Reinou durante cinco anos e morreu de peste em 1438, depois deter composto no Paço de Sintra uma boa parte dos seus valiosos trabalhos literários. D. Afonso V, filho de D. Duarte, nasceu no Paço Real, em 1432, aí passando largas temporadas, deleitado, mas também completamente apaixonado pela ambição de dilatar o Império Português para além-mar e pela guerra com Castela, no intuito de unir as duas Coroas. Em Agosto de 1481, já velho, falece nos Paços de Sintra, sendo o seu corpo trasladado para a Batalha.
O “Príncipe Perfeito” é aclamado rei, em Sintra, apenas com a idade de 26 anos, sucedendo, desse modo, a seu pai, D. Afonso V. D. João II usa sobretudo o Paço para receber embaixadas e navegantes, bem como para inteirar e analisar projectos de novas expedições.
Se bem que desde D. João I o Real Paço de Sintra continuasse a ser alvo de obras, a maior parte das quais projectadas ainda durante o seu reinado, apenas com D. Manuel o edifício conheceria um novo cunho arquitectónico, que ficaria bem expresso em todas as suas alas. Passando em Sintra muito tempo, sobretudo depois da sua viuvez, decidiu, a certa altura, ampliar o Paço, obras essas que duraram cerca de 13 anos (de 1507 a 1520). Ali teve D. Manuel a primeira notícia da chegada de Vasco da Gama e da sua frota, da Índia, bem como da descoberta do Brasil. A Corte, então reunida em Sintra, era uma das mais sumptuosas da Europa, sendo frequentes os saraus, as festas, as representações teatrais, os serões literários, as justas e os torneios, a que assistiam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gania, Afonso de Albuquerque, Pedro Nunes, Garcia de Resende, Ayres Barbosa, Bernardim Ribeiro, Gil Vicente e sua filha, Paula Vicente, entre muitos outros.
No reinado seguinte, assiste-se a um apagamento progressivo deste fausto manuelino. A alegria, as festas e o brilho da corte desvaneceram-se um pouco, se bem que o cenáculo da Infanta D. Maria viesse assistir ainda a alguns saraus. Todavia, o reinado de D. João I é também caracterizado por unia época de luxo, de cultura e de riqueza, apesar de não se verificar já o ambiente da corte anterior. Os rigores e controlos da Inquisição estarão de certo na base deste regime algo mais austero, bem como a personalidade de D. Catarina. No entanto, por esta altura, frequentavam o Paço inúmeros vultos ligados às humanidades e ciências, entre eles muitos estrangeiros e portugueses recentemente regressados de outros países, onde estudaram, sobretudo em Salamanca, Florença, Roma e Paris Pedro Nunes, Pedro Sanches, Ayres Barbosa, João de Barros, Francisco de Holanda e Luís de Camões, aos quais se juntaram algumas mulheres cultas e ilustres pertencentes à Academia da Infanta D. Maria de Portugal, como Paula Vicente, Joanna Vaz, D. Leonor Coutinho, D. Leonor de Noronha e, sobretudo. Luisa Sigeia, «o sol glorioso do humanismo português».
Com D. Sebastião, atraído pelas brenhas selváticas da Serra e pelo belo cenário esbatido e envolto em nevoeiro, autêntico local de refúgio e meditação, o Paço continua a constituir residência privilegiada da Corte. Em Sintra, D. Sebastião caçava, fazia romagens a capelas, recebia embaixadores e segundo a tradição — ter-lhe-á sido lido pela primeira vez Os Lusíadas, pessoalmente por Luís de Camões.
Durante 60 anos Portugal conheceu a dominação espanhola e, com ela, o Paço Real de Sintra conhece também o início da sua decadência. Geralmente fixados em Espanha, os Filipes e as suas cortes raramente se deslocaram a Sintra.
Mais tarde, o reinado de D. Afonso VI, intimamente ligado aos Paços Reais de Sintra, embora de modo trágico, caracterizou-se essencialmente pela grave contenda que o opôs a seu irmão D. Pedro. Este último, tendo emanado ordem de prisão contra Afonso VI, encerrou-o, primeiro na Ilha Terceira e, depois, no Paço de Sintra, onde permaneceu durante 9 anos, ficando os edifícios guardados por mais de 300 soldados. D. Pedro II que lhe sucedeu, não habitou nunca este Paço, pois preferia Queluz ordenando, todavia, que se fizessem restauros na ‘‘Sala dos Brasões”.
D. João V preferiu sempre Salvaterra e Belas a Sintra, até que, por fim, também as preteriu em favor de Mafra, onde erigiu um soberbo Palácio e Convento. Deslocou-se no entanto, por várias vezes, a Sintra, sobretudo na altura em que procurava o melhor local para a construção do grandioso monumento que tinha em mente.
No tempo de D. José, o Paço haveria de ficar marcado, sobretudo, com os danos que sofreu a 1 de Novembro de 1755, ao que se seguiu a sua reparação promovida pelo Marquês de Pombal. D. José nunca o habitou, tal como sua filha, D. Maria 1, que preferiu sempre Queluz, sendo daí levada, já demente, para o seu exílio no Brasil.
Desde esta altura, até D. Maria II, o Paço de Sintra não foi usado pela Corte: e, após o casamento desta rainha com D. Fernando II, poucos foram também os períodos que ali viveram, pois, logo que o Palácio da Pena se achou construído, preteriram de novo os antigos Paços.
A partir de então, o Paço de Sintra não conheceu praticamente estadia alguma de reis nem da Corte, registando-se apenas a recepção e jantar realizados na “Sala das Pegas”, que D. Luís ofereceu a Serpa Pinto e a Capello Ivens. Mais tarde, com os monarcas seus sucessores, o Paço continuou a ser pouco frequentado, pois todos eles preferiram sempre a Pena, Lisboa e Vila Viçosa.
Ao longo da secular existência do Paço, a vetusta Capela do Espírito Santo manteve o seu inequívoco carácter particular, servindo essencialmente a Corte. Porém, pelo menos já desde o século XV e até meados de oitocentos, aí se celebravam as características e sumptuosas festividades em louvor do Divino Espírito Santo, promovidas pelos reis e nobres os quais, então, abriam as portas ao povo.
Hoje, pala além de ser uni dos monumentos portugueses mais visitados, o Paço Real de Sintra constitui o mais importante exemplar de arte mudéjar a nível mundial. Desde há muitos anos que a sua sumptuosidade tem sido aproveitada pelo governo da Nação, que ali vem promovendo as mais importantes recepções a estadistas e personalidades estrangeiras.
1956 - Iluminação exterior e reparações nos telhados interiores; 1957 - Restauro das pinturas dos aposentos de D. Maria Pia: arranjo das canalizações das minas: reparação dos telhados; 1958 - Consolidação de várias salas, nomeadamente da “Sala dos Brasões”; 1962 - Obras de conservação no interior e exterior; 1966/77 - Reparações no interior e exterior e instalação eléctrica; 1977/81 - Instalação de uni sistema automático de detecção de incêndios; 1978/80 - Diversas obras de conservação; 1980 - Restauro da pintura decorativa da Capela; 1985 - Trabalhos no interior e reparação das minas; 1986 - Obras de recuperação interior e restauro das coberturas; 1987 - Beneficiação da instalação eléctrica.
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