Localização
Serra de Sintra, freguesia de Colares.
Memória descritiva
Ao Convento de Santa Cruz dos Capuchos, vulgarmente apenas conhecido como Convento dos Capuchos - construído, como escreve em 1728 um dos cronistas da Ordem, Frei António da Piedade, «entre matos densos, penedos altos, e silvestres árvores, que neste seu maior retiro produz a Serra mais copiosa» (II: 244) -, se ascende por uma entrada constituída por dois grandes blocos de pedra que o acaso da natureza quase dispôs em arco e que a mística franciscana destes frades aproveitou, como se de um ex-libris introdutório da sua vivência se tratasse. Uma grande cruz de pedra, logo após esta entrada, nomina a invocação do cenóbio. E sob a sombra espessa das árvores centenárias que se transpõem uns degraus reduzidos e toscos que por ambos os lados contornam esta cruz e dão acesso ao terreiro. Aqui, a cada lado de uma nascente natural que os frades aproveitaram, foram colocadas duas mesas rodeadas de bancos de pedra que a tradição panegirística, embora infundada, refere como local de descanso do rei D. Sebastião nas ocasiões em que por Sintra andava e ao convento se deslocava. A nascente se apôs uma pia de pedra enquadrada por painéis de azulejos, decorados com motivos geométricos, que devem datar, pela policromia azul e amarela, já do século XVII. Este terreiro é o último espaço de luz plena e natural antes da penumbra e da escuridão que dominam todo o interior desta casa religiosa. Ante o conjunto do convento que deste terreiro já se percebe, referiu-se-lhe Raul Brandão, quando lá esteve, como «uma coisa ao mesmo tempo cheia de humildade e de grandeza (...) [que] fica ao cabo do mundo, suspenso entre a abóbada do céu e a planície ilimitada. Descobre-se ali tudo quanto há de grande - o céu, a terra, o mar, sem deixar de ser recolhido e íntimo (...). Silêncio, árvores desgrenhadas ao fundo um telheiro que é o adrozinho do convento» (1924: 531). A portaria do convento, um simples telheiro com tecto e traves de madeira forrada de cortiça, do imediato elucidam acerca da pobreza e do rigorismo ascético que orientaram esta construção rústica e primitiva. Deste adro onde já a sombra vai tomando o seu lugar se tem acesso, à direita para uma capela e, à esquerda, para a igreja conventual e para um corredor tortuoso e escuro que conduz ao pátio interno. A capela do lado direito, da significativa invocação do Senhor dos Passos — o Calvário que se avista — totalmente revestida, no seu interior, por azulejos do século XVIII — datados de cerca de 1740 (Santos Simões, l979: 320) — é ladeada por dois minúsculos confessionários que não ressaltam da parede para o adro mas antes fazem parte integrante da capela e são, na sua totalidade, também azulejados. Os azulejos da capela, pintados a azul, representam, nas paredes laterais as cenas da Flajelação de Cristo e da sua Coroação de Espinhos e, na abóbada, os símbolos da Paixão e estrelas. No interior ainda, encimando a porta, a pintura de Cristo Crucificado completa um programa iconográfico que se acorda com os ideais mortificadores e espirituais desta ordem de regra franciscana.
Na parede testeira da portaria, de novo a presença dominante do principal símbolo da Paixão - uma cruz de madeira, contornada na sua zona superior por conchas embrechadas em argamassa, que é o suporte de uma pintura do século XVII representando um frade capucho crucificado. Umas escadas reduzidas, talhadas na rocha, com um resguardo embrechado de conchas que se poderá datar do século XVIII, dão acesso a duas reduzidas dependências (confessionários) cujas portas, revestidas de cortiça, se situam, simbolicamente, sob os braços da cruz. Ao centro do muro semi-circular de sustenção das escadas foi aberto um nicho de arco perfeito onde esteve, pelo menos até cerca de princípios dos anos vinte do nosso século, uma estátua jacente de Santa Maria Madalena. Raul Brandão, no Guia de Portugal (1924: 532), ainda refere esta «Senhora [que] dorme encantada entre conchas e azulejos». Incrustada nas paredes da portaria existe, ainda, iconografia relativa a Nossa Senhora e à Ordem dos Capuchos. Assim, na parede direita, um nicho renascentista quadrado de pouca profundidade e perspectivado com a representação, em alto-relevo, de Nossa Senhora com o Menino Jesus e o que poderá considerar-se como a efígie do fundador do convento, D. Álvaro de Castro, sobre cuja cabeça assenta a mão direita do Menino e, no tímpano do frontão triangular, um Cristo Pantocrator segurando o globo do mundo na mão. Na parede esquerda, um alto relevo também renascentista, em que figura uma Nossa Senhora sentada com o Menino ao colo e seis anjos segurando o reposteiro de um dossel. Sobre a porta da igreja conventual, uma cruz de conchas remata a lápide com a inscrição:
LOVVADO SElA O SANTISSIMO SACRAMENTO
E, sobre a porta do corredor que dá para o pátio, outra cruz executada no mesmo material erguida por cima de uma caveira e dois ossos cruzados — conjunto icónico que remete para as formas de culto características da segunda metade do século XVI e para o pietismo capucho. Na portaria está sepultada D. Maria de Noronha (m. 1684), viúva de D. Álvaro de Castro, terceiro padroeiro do convento. A igreja do convento, à direita, é de uma espacialidade impressionante: de uma só nave de dimensões reduzidas, coberta por uma abóbada de canhão revestida de estuque e pelo bojo pesado de uma enorme rocha, tem como única decoração consentida um pequeno retábulo de mármore — no qual se enquadraram, em tempos, as estátuas de S. Francisco e de Santo António com o Menino Jesus - e o respectivo altar cujo frontal é formado por um painel de embutidos. O conjunto, que Frei António da Piedade descreveu em 1728 como um «retavulo (...) de pedra polida, feita ao moderno», poderá datar-se dos últimos decénios do século XVII ou do princípio do século XVIII. Este retábulo assume-se, de facto, como o único elemento de alguma "modernidade" num universo todo preenchido por um conceito de ancestralidade e de primitivismo cristãos. Embutida na parede, do lado do Evangelho, uma lápide do século XVIII, sobrepujada pelo brasão dos Castros inscrito numa cartela barroca, atesta a fundação do convento por O. Alvaro de Castro. filho de D. João de Castro, Vice-Rei da Índia:
D . ALVARO DE CASTRO DO CONS.° DE ESTADO, E VEDOR DA FAZ.ª DEL REY D SE BASTIAÕ FVNDOV ESTE CONVENTO POR MANDADO DO VISOREY . D . IOAO DE CASTRO SEV PAY ANNO 1S60: O PADROADO DOS SVCESSORES DE SVA CASA. O ALTAR DESTA IGRE.ª HE PRlVILEGIADO TODOS OS DIAS A QVAL QVER SACERDO TE QVE NELLE CELEBRAR TODAS AS PESSOAS QVE CONTRITAS E CONFESSADAS 0V CÕ PROPOSITO DE SE CONFESSAR, VISITAREM ESTA IGR.ª NA FESTA DA INVEAÕ. DA. S . CRUZ DESDAS PRIMEIRAS VESPORAS ATE O SOL POSTO DO DIA E ROGAREM A DEOS POLA PAZ ENTRE OS PRINCIPES CHRISTAÕS, EXTIRPAÇAÕ DAS HERESIAS EXALTAÇAÕ DA. 5. MADRE IGR.ª E POLA ALMA DE. D. IOAÕ DE CASTRO GANHAÕ INDVLG.ª PLEN.ª E REMISSAÕ DE SEVS PECCADOS ESTAS INDVLG.ªS . CÕCEDEO O PAPA PIO 4º ANNO DE 1S64 A INSTÃCIA DO MESMO. D. ALV° DE CASTRO, SENDO EMBAIX.ºR E ROMA
A partir do lado do Evangelho da capela-mor, degraus esculpidos na pedra da serra conduzem a uma exígua ante-câmara, toda forrada de cortiça, e iluminada por duas janelas situadas nos dois panos de parede que confluem para a rocha. Após esta sala, é numa luminosidade rarefeita que se desenvolve toda uma arquitectura de negação do terreal; o resto do convento cujas dependências se dispõem ao sabor das irregularidades da natureza, num plano ligeiramente superior ao qual se tem acesso por uma série de grupos de pequenos degraus. É neste segundo nível, dispostas ao longo de um estreito, irregular e escuro corredor onde irrompe parte de um grande penedo, que se situam as celas «tão estreitas, que ordinariamente os seus habitadores dormem encolhidos, e alguns mandaraõ abrir na rocha, que lhes serve de parede, buracos para acommodares os pés>» (Piedade, 1728. II: 245) -, a livraria (a dependência com maior iluminação natural), o quarto dos doentes (sem luz directa), o refeitório (cuja mesa, levantada a um palmo do chão, é formada por uma enorme laje de pedra mandada arrancar da serra pelo Cardeal-Rei D. Henrique), a cozinha, o quarto do prior e a Sala do Capítulo (com um banco corrido forrado de cortiça e, numa das paredes, um nicho onde esteve uma imagem de Nossa Senhora). A dependência das latrinas tem um acesso pelo exterior, paralelamente ao núcleo do dormitório. Pelo interior do convento ou por um corredor que se inicia na portaria, se chega ao pátio interior, adornado ao centro por uma fonte de pia hexagonal, destinado ao recreio dos frades. Neste corredor existem duas esculturas de frades capuchos enterrados na rocha até à cintura. Com a frontaria ornamentada por dois frescos (de cada lado da porta) representando São Francisco e Santo António datados do século XVII e atribuídos ao pintor André Reinoso (Serrão, 1989: 58), está a Capela do Senhor Morto, mandada construir pelo Cardeal-Rei D. Henrique, que aí ficava quando se deslocava ao convento, servindo-lhe de cela a pequena sacristia. Sobre ambos os santos, numa tira, está pintado o tradicional dístico capucho LOVVADO SElA O SANTISSIMO SACRAMENTO. Pelo terreno da cerca do convento localizam-se ainda a gruta do célebre Frei Honório de Santa Maria - que os panegiristas aí referem ter vivido durante trinta anos na mais absoluta penitência — identificada com a inscrição:
HIC. HONORIVS. VITAM. FINIVIT. ET. IDEO . CVM DEO VIVAM . REVIVIT OBIIT ANNO DE 1S96
e uma capela com cerca de dois metros de altura, de abóbada de berço pintada, paredes azulejadas e que conserva no seu interior uma imagem de Cristo com vestígios de tinta vermelha. Vários nichos dispersos pontuam, ainda, toda a mata incluída nesta cerca.
Memória histórica
O Convento de Santa Cruz dos Capuchos foi mandado construir por D. Álvaro de Castro (1525-?), Conselheiro de Estado de D. Sebastião e Vedor da Fazenda, no ano de 1560, em resultado do cumprimento de um voto de seu pai, D. João de Castro (1500-1548), o quarto vice-rei da Índia (1545-48) que encontramos ligado, também, à Quinta da Penha Verde, local para onde se retirava sempre que estava em Portugal. Morrendo em Goa, vítima de uma doença que subitamente o acometeu, impossibilitado de concretizar o voto que fizera, delegou-o em seu filho. Na formulação da sua arquitectura e no rigorismo da sua regra franciscana, o convento capucho de Sintra é um dos múltiplos exemplos da religiosidade pietista do século XVI em Portugal e a sua fundação entronca no ambiente de reformismo religioso que se iniciara, embora sem resultados práticos assinaláveis, ainda durante o reinado de D. Manuel I. Da reforma congreganista manuelina fazia parte, também, a fundação de doze mosteiros jerónimos, iniciativa autorizada em 1501 pelo Papa Alexandre VI, mas falhada, tendo-se fundado apenas os da Pena, na Serra de Sintra (1508), e das Berlengas (1513) (Silva Dias, 1960: 98-99). O estabelecimento da Ordem dos Capuchos em Portugal foi trabalhoso. A Ordem fora fundada em Espanha, em Vila Nueva del Fresno, por Fr. João de Guadalupe, com a instituição da Custódia do Santo Evangelho, em finais do século XV, como reacção aos Observantes. A luta entre as províncias e as custódias, saldou-se por um triunfo daquelas e é assim que, em 1500, Fr. João de Guadalupe se encontra em Portugal. A partir desta data os capuchos contaram com o apoio do Duque de Bragança, D. Jaime, que lhes fundou o primeiro convento no nosso país, o da Piedade, perto de Vila Viçosa. Porém, seja porque continuaram a ver-se perseguidos pelos observantes espanhóis, seja pela vasta conjuntura da política ibérica de D. Manuel, acabaram por ser expulsos em 1503. A simpatia que granjearam junto da Casa de Bragança, em Portugal, e do Cardeal Alpedrinha, em Roma, possibilitou-lhes o regresso em 1505. Em 1508, o priorado da Piedade possuia o estatuto de custódia autocéfala e, em 1539, foi criado sob a iniciativa do Duque de Aveiro, D. João de Lencastre (que obteve em Roma as autorizações necessárias para fundar o convento da Serra da Arrábida) —o priorado da Arrábida. A partir de 1568, dada a multiplicação do número de conventos, foi criado o priorado de Santo António, composto por conventos de recolhimento, de que fazia parte o então recente convento de Santa Cruz da Serra de Sintra. A expansão da Ordem dos Capuchos em Portugal só se verificou, pois, já no contexto cultural do humanismo pietista do reinado de D. João III (1521-1556), muito diferente do humanismo positivo que dominara o tempo de D. Manuel I, e o seu enraizamento enquanto congregação foi mais tarde completado, com a protecção das Casas de Bragança e de Aveiro e do Cardeal-Infante D. Henrique. O Convento de Santa Cruz de Sintra é um desses conventos eremíticos de freires arrábidos que concretizam, por via de uma arquitectura despojada até ao essencial e ao limite da sobrevivência e de uma vivência baseada na pobreza e na mortificação, a recuperação mística de características ainda tardo-medievais da regra franciscana no seu maior rigorismo espiritual. Correspondendo a uma reforma exemplar do congreganismo português e constituindo-se em exemplo de vida para outras ordens, este pietismo —ao qual não é estranho o conhecimento do pietismo capucho italiano (Silva Dias, 1960: 150)—, considerado expoente de virtudes cristãs, foi acalentado por nobres e reis. O convento serrano de Sintra, no qual «se gastaram em toda a fabrica (...) sómente cem cruzados (...) sem beneficio nenhum da arte» (Piedade, 1728,II: 244), ficou famoso pelo extremo da sua pobreza, seja a da construção — «neste ainda hoje resplandece a pobreza com que se fundou, assim no tosco das paredes, como na vileza da materia de que he forrado, que he de cortiça mal polida», seja a da regra de vida — «os guardanapos são de estopa muito grosseira, as pucaras por onde bebem, alcatruzes de tosco barro; e de carne se guarda perpetua abstinencia; e em muitas Quaresmas e Adventos se não comia cousa guizada ao fogo» (Piedade, 1728, II: 245). A celebridade da piedade capucha era motivo de atracção para os fiéis em festas de grande significado católico, como era a da Invenção da Cruz, em relação à qual D. Álvaro de Castro conseguiu do Papa Paulo IV, quando esteve em Roma por embaixador (1562-64), a indulgência plenária para quem, nesse dia, rezasse pela paz entre os reis cristãos, pelo fim das heresias e pela exaltação da igreja. Esta prorrogativa papal encontra-se explicitada na lápide aposta à parede da igreja conventual, como acima ficou transcrito. O limiar de pobreza e abnegação vivido pelos frades capuchos do convento de Sintra motivou de Filipe II, por ocasião da visita que aí fez no Outono de 1581, o significativo comentário deque, por comparação com o mosteiro jerónimo da Pena, aquele humilde cenóbio seria concerteza o da Glória - «allá es la Pena, aquí es la Gloria». De favorecimentos régios contou o convento com alguns: D. Catarina, mulher de D. João III, com frequência lhe fazia chegar alimentos, de que os frades guardavam o que consideravam estritamente necessário; D. João IV, ainda duque de Bragança (esteve mais tarde no convento, já rei, em Outubro de 1654, por ocasião de uma visita a Sintra cuja entrada foi comemorada com assinalável pompa), ordenou que do Almoxarifado de Cascais fosse concedido aos frades capuchinhos da Serra seis dúzias de pescadas, de cações secos, e todo o peixe julgado necessário para o dia da festa de São Francisco; D. Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV, fez-lhes mercê de um moio de trigo e de uma arroba de cera lavrada todos os anos; D. Pedro II redobrou a dádiva de D. Luísa de Gusmão e D. João V concedeu-lhes uma pipa de azeite por ano. Para a mentalidade romântica, que subentendia, no sonho ou no desespero, a vivência ou a participação simbólica do meio natural, este antro de abnegação em plena natureza constituía um espectáculo tétrico, perverso mesmo, no qual a arquitectura, pelo quotidiano que fazia antever, representava a face mais arrepiante. Não admira, pois, que a maior parte dos viajantes do final do século XVIII e do princípio do século XIX considerem o convento capucho, como CarI Israel Ruders, em 1798, «feio e insignificante», ou Burnswick, em 1882, «situado no centro duma triste solidão, rodeado pela aridez, e açoutado pelos vendavaes (...), este pequeno mosteiro aberto na rocha e contendo umas doze cellas nas quaes [mal] se podiam mover os seus desgraçados habitantes». O que o século XVI fixara - uma arquitectura pobre, uma vida de contemplação (a oração mental é uma das vertentes do pietismo capucho e que chega a infiltrar-se na prática de outras congregações, como foi o caso dos Jesuítas) e sofrimento — é para o século XIX um "belo-horrível" demasiado verdadeiro para poder ser romântico. G. Le Roy Liberge perguntava-se, cerca de 1910, como tinha sido possível seres humanos terem vivido naquelas condições e, antes dele, Ruders, depois de visitar o convento, desabafou com alívio: «é com prazer que tomamos, de novo, o belo caminho que conduz a Sintra». Habitado ainda com toda a certeza nos finais do século XVIII, o Convento de Santa Cruz dos Capuchos deve ter sido abandonado apenas em 1834, com a extinção das ordens religiosas que o regime liberal determinou.
In "Sintra Património da Humanidade"
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