Gloriosamente assentado no meio do casario da chamada Vila Velha, o Paço Real constitui o principal conjunto arquitectónico sintrense e a mais fascinante construção áulico- realenga que subsiste em Portugal. Trata-se de um palácio que não foi concebido de uma só vez nem em uma só época, mas sim de um harmonioso e sedutor somatório de partes distintas, edificadas em sucessivas fases ao sabor de estilos díspares. E é esse conjunto de múltiplos gostos e mentalidades que contribui, sobremaneira, para a estranha beleza deste palácio. De entre as diferentes fases de edificação sobressaem, porém, duas grandes épocas que determinaram o carácter e as dimensões do palácio: a de D. João I, ou seja, o primeiro terço do séc. XV e, um século depois, o primeiro quartel de quinhentos, no reinado de D. Manuel I. Palco privilegiado de inúmeros acontecimentos da História nacional, que viu nascer e morrer dentro das suas paredes D. Afonso V, levantar por rei D. João II, D. Manuel recebendo as notícias dos descobrimentos da Índia e do Brasil, partir D. Sebastião para a nefasta batalha de Alcácer Quibir, cárcere lamentável do infeliz D. Afonso VI; foi este palácio estância dilecta de lazer, simultaneamente centro lúdico e didáctico, da realeza nacional. No seu interior deambulou o bucólico Bernardim Ribeiro, representou Gil Vicente, escreveu João de Barros, Camões terá lido pela primeira vez Os Lusíadas a D. Sebastião. De destacar - entre o labiríntico e surpreendente conjunto de salas, pátios, escadarias, corredores e galerias - a mais vasta e rica série de azulejaria mudéjar existente na Península Ibérica, o que, atendendo à especificidade penínsular deste tipo de materiais cerâmicos, equivale a dizer a mais vasta e rica série de azulejos mudéjares do Mundo. Depois, vá sentindo que está penetrando num paço mourisco, de conto de fadas, e deslumbre--se com o tecto da Sala dos Cisnes que nos recorda o casamento da Infanta D. Isabel de portugal com Filipe «o Bom» da Borgonha, a revivalização de lendas medievas, algo maliciosas, na Sala das Pêgas, a fantástica Sala dos Brasões, espelho glorioso da nobreza lusitana; o pavimento desgastado pelos contínuos passos de D. Afonso VI, enclausurado nos derradeiros nove anos da sua vida naquela sala. E, ao sair, deite um último olhar às chaminés descomunais que coroam a grande cozinha monacal e que constituem o mais conhecido e difundido ex-libris da Vila de Sintra. |